quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Seu Gentil do Orocongo...

O Orocongo é um instrumento de origem africana que está em extinção, sendo que o único tocador e luthier existente na América Latina é o seu Gentil do Orocongo, 64, de Florianópolis.

"É feito de uma cabaça grande, serrada ao meio, com um braço que possui apenas uma corda. À primeira vista, parece muito primitivo. Mas essa primeira conclusão não resiste a um segundo olhar, quando prestamos atenção à técnica que é emprega da tocá-lo. Quando comecei a prestar atenção em como os dedos de mestre Gentil passeavam pela corda, sem tocar o braço, percebi a delicadeza e a sofisticação que tinha de ser empreendida para obter melodias e harmonias satisfatórias." (Déa Trancoso, cantora e jornalista)

domingo, 18 de outubro de 2009

O professor pesquisador e a pesquisa da prática

Conhecer para transformar, eis o objetivo.
Devido a complexidade humana e a provisoriedade do conhecimento, a atividade de ensinar precisa ser continuamente refletida e ressignificada.
O professor precisa, continuamente, ser reflexivo e investigar sua prática, esforçando-se para que haja sempre e conscientemente a comunicação entre o conhecimento científico e suas formas mais pessoais e ja consolidadas de conhecimento (da prática cotidiana), procurando evitar que sua prática profissional transforme-se num praticismo, tão prejudicial ao trabalho pedagógico ou a qualquer atividade em que, para que se obtenha sucesso, haja a necessidade de encontrar soluções eficientes para novas situações-problema.
Nessa prática, é necessário que o professor encontre meios de desestabilizar crenças e práticas cristalizadas de seu cotidioano profissional que são, muitas vezes, desprovidas de um embasamento teórico estrutural e que pode estar sendo prejudicial à sua atividade pedagógica, já que o mesmo pode acabar assumindo essas crenças e práticas como verdades inquestionáveis e por sua vez, limitadoras, quando se tornam um empecilho que dificulta a mudança frente a novas situações e necessidades.
Através da pesquisa da prática e ação mediante os resultados, o professor-pesquisador é capaz de transformar sua prática, buscando sempre a reflexão e a investigação, necessitando, para isso, metodologicamente distanciar-se dela para lançar o olhar do questionamento; para pensar a prática, buscando interação entre seu conhecimento pessoal e compartilhado e o conhecimento científico, o que deverá levar a projeção de novas ações.
Busca-se a ciência para ao esclarecimento de questionamentos e a resolução do problema, o qual uma vez resolvido, requer constante reflexão, que por sua vez, gera novos questionamentos.
A ciência hoje precisa considerar a subjtividade como inevitável na construção do conhecimento, pois os pensamentos, crenças e percepções do pesquisador estão inseridos já nas escolhas do mesmo e se expressam ao longo de sua execução. Para que haja validade do trabalho de pesquisa da prática como trabalho científico, é preciso que haja o reconhecimento de uma epistemologia da prática profissional, que ao contrário da racionalidade técnica da pesquisa positivista, admita essa prática (profissional) como um lugar de produção dos saberes, mas com instrumentos de validação diferentes dos usados para pesquisa acadêmica tradicional, pois os estudos dessa prática (docente) são orientados pelo paradigma interpretativo, compreensivo e reflexivo que difere do tipo de pesquisa com abordagem quantitativa.
O professor detém o conhecimento adquirido através da prática, do dia a dia, da investigação e auto-avaliação; um conhecimento pessoal e subjetivo, que somado ao saber sistematizado e formal, é a fonte para sua própria pesquisa e construção (transformação) do conhecimento diretamente relacionado com seu próprio trabalho e cotidiano, que poderá transformar e melhorar sua atuação, tornando realmente válido o seu trabalho, na medida em que, assumindo conscientemente suas responsabilidades, cumpre de maneira realmente significativa o que se propõe.

A pesquisa qualitativa no campo educacional

A ciência hoje, ao contrário da ciência tradicional, admite que é preciso encontrar novas maneiras de se relacionar com as diversas facetas do conhecimento e a maneira como o homem se relaciona com sua realidade legitima a adoção de uma outra abordagem de pesquisa que difere da abordagem tradicional, principalemente no que se refere a relação entre pesquisador e objeto de pesquisa. Essa (relativamente) nova abordagem de pesquisa chamada de abordagem qualitativa, permite que o pesquisador tenha proximidade com seu objeto de pesquisa e vem sendo, ao lado da abordagem quantitativa, uma forma significativa de investigação e construção do conhecimento científico.
Creio que, por reconhecer que todo conhecimento, por mais que seja organizado e sistematizado, são verdades relativas produzidas pelo experimento observado e que não existem verdades absolutas e inquestionáveis, é que se admite hoje a participação do olhar do pesquisador na pesquisa. Sendo um dos principais instrumentos de sua própria pesquisa, o pesquisador não é neutro. Este insere-se no ambiente a ser investigado, procurando não intervir. Porém, mantém-se algumas regras para produção e validação do conhecimento científico: o pesquisador não julga aleatoriamente, sem um embasamento teórico, nem permite conscientemente que suas crenças e conceitos anteriores determinem o resultado de sua pesquisa. Este também não interfere no objeto de sua pesquisa, preocupando-se criteriosamente em como inserir-se e, posteriormente, em como afastar-se de seu campo de pesquisa. Há necessidade de profundidade de conhecimentos teóricos precedentes a análise, sendo que admite-se nessa abordagem, partir-se dos dados para a teoria, "deixando que a dimensão e categorias aflorem durante o processo de coleta e análise dos dados".
No campo educacional, encontramos grande variedade e riqueza de fontes de pesquisas, antes negligenciados pela pesquisa tradicional orientada pelo positivismo. A prática cotidiana (profissional), organizada e sistematiza passa a ser considerada como lugar de produção de saberes. O questionamento de problemas teóricos e quase universais ou de interesses secundários vai dando lugar a problematizações locais, investigadas em seu contexto específico. Neste sentido, a pesquisa qualitativa aborda as práticas escolares cotidianas, seus problemas e questionamentos, como principais objetos de pesquisa, dialogando com teorias científicas, tendo como objetivo, além da construção do conhecimento, o de intervir prática e diretamente na modificação e melhoria desse cotidiano, continuamente.

Este tipo de pesquisa veio para mudar a forma que as pesquisas em educação eram feitas e vistas, mudando a forma de se coletar e interpretar os dados, e com isso, percebe-se uma grande mudança na ciência e na maneira de se produzir conhecimento, na idéia de conhecimento como "verdades relativas" e sua provisoriedade, etc., alterando consideravelmente a forma de se compreender o mundo.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ERLKONIG

Haja coração... a história desse lied (tanto a poesia quanto a melodia) é muito famosa e marca uma época muito na história da música.

Este poema é inspirado no poema de mesmo nome de Goethe (1749 – 1832) que narra a história do Rei dos Elfos (Erlkönig) que captura de um pai seu filho em plena cavalgada levando a criança à morte.
Franz Schubert (1797 – 1828) escreveu um belíssimo lied baseado nos versos de Goethe.
No ápice, quando o menino suplica ao pai que acredite que seria levado à morte pelo rei dos Elfos (somente a criança via e ouvia a criatura Erkonig), Schubert aumenta uma oitava a cada repetição do pedido desesperado do filho, suplicando ajuda enquanto a pai ainda carregava no colo.

Com texto de Goethe, Erlkönig apresenta-se com um narrador e três personagens: pai, filho e Rei dos Elfos. Este é um lied de difícil interpretação por isso mesmo. As várias personagens e narrador devem ser auditiva e visualmente distintas pelas suas diferenças tímbricas e expressões faciais. Muito trabalho para um cantor só!

Das dezenas de interpretações postadas no youtube, duas das mais belas. O primeiro com Anne Sofie Von Otter e orquestra; o Segundo com Bryan Terfel e, no piano, Malcom Martineau.





Aqui fica o texto original e a tentativa de tradução.

Der Erlkönig

Wer reitet so spät durch Nacht und Wind?
Es ist der Vater mit seinem Kind;
Er hat den Knaben wohl in dem Arm,
Er faßt ihn sicher, er hält ihn warm.

"Mein Sohn, was birgst du so bang dein Gesicht?"
"Siehst, Vater, du den Erlkönig nicht?
Den Erlenkönig mit Kron und Schweif?"
"Mein Sohn, es ist ein Nebelstreif."

"Du liebes Kind, komm, geh mit mir!
Gar schöne Spiele spiel' ich mit dir;
Manch' bunte Blumen sind an dem Strand,
Meine Mutter hat manch gülden Gewand."

"Mein Vater, mein Vater, und hörest du nicht,
Was Erlenkönig mir leise verspricht?"
"Sei ruhig, bleib ruhig, mein Kind;
In dürren Blättern säuselt der Wind."

"Willst, feiner Knabe, du mit mir gehn?
Meine Töchter sollen dich warten schön;
Meine Töchter führen den nächtlichen Reihn,
Und wiegen und tanzen und singen dich ein."

"Mein Vater, mein Vater, und siehst du nicht dort
Erlkönigs Töchter am düstern Ort?"
"Mein Sohn, mein Sohn, ich seh es genau:
Es scheinen die alten Weiden so grau."

"Ich liebe dich, mich reizt deine schöne Gestalt;
Und bist du nicht willig, so brauch ich Gewalt."
"Mein Vater, mein Vater, jetzt faßt er mich an!
Erlkönig hat mir ein Leids getan!"

Dem Vater grauset's, er reitet geschwind,
Er hält in Armen das ächzende Kind,
Erreicht den Hof mit Müh' und Not;
In seinen Armen das Kind war tot.



O REI DOS ELFOS

Quem cavalga assim tarde a meio da noite e ao vento?
É um pai que traz consigo seu filho;
Leva firme nos braços o menino,
Aperta-o contra o corpo e guarda-o aquecido.

“Filho, por que escondes com medo o rosto?”
“Não vês, pai, o Rei dos Elfos?
O Rei dos Elfos com sua coroa e cauda?”
“Meu filho, é só uma faixa de neblina.”

Ei, adorável criança, vem, vem comigo!
Tantos jogos divertidos podemos jogar juntos;
Há muitas flores coloridas na beira da praia,
E minha mãe tem guardadas várias roupas douradas.

“Pai, pai, não ouves?
Tudo o que o Rei dos Elfos me fala sussurrando?”
“Calma, fica calmo, meu pequeno:
Entre as folhas secas sopra o vento.”

Belo menino, não queres comigo vir?
Minhas filhas cuidarão de ti muito bem;
Minhas filhas estarão ao teu lado à noite
E vão dançar e cantar até dormires.

“Pai, pai, não vês ali
As filhas do Rei naquele canto escuro?”
“Filho, meu filho, do que vejo estou seguro:
Ali brilham os velhos e cinzentos salgueiros.”

Eu te amo, agrada-me esse belo rosto;
Mas se não vens por bem, trago-te a contra gosto.
“Pai, pai, agora ele puxa-me!
O Rei dos Elfos magoou-me!”

O pai, horrorizado, cavalga veloz,
Nos braços traz o agonizante menino;
Aflito e cansado, a casa alcança:
Em seus braços, morta a criança.