domingo, 9 de dezembro de 2007

"
Seus olhos balançam irregulares,
eu também, oscilo e caio no círculo
conforme: areno arenoso.
Desfazem-se os grandes blocos encaixados;
entre seus cantos angulares
a fenda que os separa é causa (paciente)
do contorno suave
da palavra morna desguilhada
da morenice ornada destes olhos e este rosto.
è o compasso e o contorno das inúmeras voltas
que nos agrupam no centro radiante.
Sob esta luz
espelho em tua clareza o princípio do eco:
sempre começo-fim interminavelmente."
(por Fausto R. A.)
Beleza temperamental
sufoca, aflige e confunde
a idéia do ideal
Como a nuvem carregada
faz com a visão do céu estrelado
que quase sempre chora

sábado, 8 de dezembro de 2007

Presa, envolta em farpas
Todo cuidado é pouco
Delicadeza e paciência
Quase imóvel
Vontade de espernear
chorar, esbravejar
Mas as consequências doem

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

"CAENTE

A desproporção entre o céu negro
e as letras prenhas, inchadas
sortidas de cansaço
é a dúvida - que é quase o equilíbrio da vida.
Busca de palavras: sempre disputando,
assumindo (...) sofrendo à toa.
A noite quieta, precisão profunda,
espessa e completa,
ausente às iniciações e fronteiras do pensamento:
Sim, os poetas são aqueles que cavam a noite.
Tão sublime e inesgotável o poço do céu escuro
oco de estrelas caentes:
moedas amarradas a pedidos ou esperança de inspiração
que se afundam
pelo mesmo motivo da estranheza de sua pessoa
estar sempre à borda do abismo."
(Fausto R. A.)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

"Obsessão

Selva, me apavoras como as catedrais.
Teu órgão urra e meu coração maldito
Responde a todos os teus ecos sepulcrais,
Câmara de luto vibrando em velho rito.

Mar, eu te odeio! Teu oco, teu tumulto
São meus, bem meus; eu ouço o riso, o esgar
Do homem vencido, o choro, o insulto
Ouço, na gargalhada enorme do mar.

Como eu te amaria, ó noite! sem estrelas
Pra salpicar a fala de lugar comum!
Eu procuro o vazio, o negro, o nu!

Mas esta escuridão também é uma tela.
No meu olho reluz, comigo vem morar,
Daqueles que eu perdi, o querido olhar."
(Charles Pierre Baudelaire)

domingo, 2 de dezembro de 2007

Fale por mim, Zé:

Lamento Sertanejo

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga, do roçado
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigo
Eu quase que não consigo
Viver na cidade
Sem ficar contrariado

Por ser de lá
Na certa por isso mesmo
Não gosto de cama mole
Não sei comer sem torresmo
Eu quase não falo
Eu quase não sei de nada
Sou como rês desgarrada
Nessa multidão
Boiada caminhando a esmo

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Caminho do Itupava, por Auguste de Saint`Hilaire


Auguste de Saint`Hilaire - Viajante e cientista francês, viajou alguns anos pelo Brasil, tendo escrito importantes livros sobre os costumes e paisagens brasileiros do século XIX.





O Relato de Saint'Hilaire sobre o caminho do Itupava em "Viagem a Curitiba e Província de Santa Catarina", de 1820, é exato, perfeito, milimétrico.

Ler é reviver!

"Mais ao longe o terreno se torna menos desigual, e a campanha oferece uma agradável alternância de pastagens e bosques, estes na maioria, compostos quase unicamente de araucárias. Estas árvores (araucárias), quase sempre comprimidas umas às outras, apresentam-se como manchas de verde escuro, algumas vezes nascem no campo e, então, só se tocam na copa e suas tintas escuras contrastam com a verdura da grama que cresce por baixo. Diante de nós, no horizonte, avistamos a Serra de Paranaguá, cujos cumes, de variadas formas, são cobertos de mato. A paisagem apresenta aspecto austero e majestoso que a natureza sempre tem nas montanhas.

A fazenda onde parei, denominada Borda do Campo, tinha sido também uma propriedade dos antigos jesuítas. Depois de sua expulsão, a propriedade foi administrada inicialmente pela Fazenda Real, mas como não produzisse nada nas mãos dos funcionários do governo, ela foi levada a leilão. É essa praticamente, a história de todos os estabelecimentos que haviam pertencido aos jesuítas e dos quais eles sempre tinham sabido tirar grande proveito. As terras ao redor de Borda do Campo (Parque Castelo Branco) não são, na verdade muito boas, e seus pastos não possuem a qualidade que tem os dos Campos Gerais, mas o local pode ser considerado um ponto-chave para os distritos de Curitiba e Castro. Os padres da Companhia de Jesus podiam, ali, aumentar sua influência e o número de seus amigos. Não é de admirar que, em geral, as propriedades dos jesuítas fossem tão lucrativas para eles, quanto nas mãos do Rei elas se tornavam inúteis. São conhecidos o descaso e a má fé com que é administrado o Brasil e tudo o que se relaciona com o serviço público. Em oposição, os jesuítas punham em tudo uma ordem e uma atividade que ninguém conseguia sobrepujar e, além do amor ao dever que os animava, eles tinham um "sprit de corpis" e uma noção de honra elevados ao mais alto grau.

Depois de assistir à fabricação do mate, deixei a Fazenda de Borda do Campo. Logo penetramos em matas onde predomina a araucária e onde encontramos alguns profundos atoleiros aos quais o meu guia não deu grande atenção. Com efeito, isso nada era, comparado com o que iríamos enfrentar mais tarde.

O primeiro passo difícil que encontramos, tem o nome de Pão de Loth. Neste lugar o caminho é coberto (calçado) de grandes pedras arredondadas e o seu declive é muito acentuado. De vez em quando as bestas de carga são forçadas a dar saltos assustadores para o viajante que nunca passou por essa serra.

A estrada volta a ser passável até o lugar denominado Boa Vista, porque daí se vê grande parte da planície que se percorreu antes de chegar a serra.

Na Boa Vista o caminho é cortado na montanha, numa profundidade de perto de quatro metros e não oferece mais que uma passagem estreita onde as mulas não avançam sem raspar-se com sua carga à direita e à esquerda. Logo começa-se a ver adiante de si um dos mais altos picos da serra, o Marumbi, cujos flancos cortados verticalmente não mostram, em vários lugares, senão rocha viva. A estrada vai se tornando cada vez mais difícil; em certos lugares ela é cavada na montanha a uma profundidade considerável, tem pequena largura e é coberta pela folhagem das árvores, que se entrelaçam no alto e privam o viajante da luz do dia. Em outros trechos são os atoleiros que surgem, e é com grande dificuldade que os burros se livram deles; finalmente há bruscos desníveis no terreno, que obrigam os animais a dar grandes saltos. Em vários lugares foram colocadas algumas achas de madeira sobre os atoleiros, mas os animais escorregam ao pisar sobre suas superfícies arredondadas e molhadas, correndo o risco de cair a todo momento.

A pior parte de todo o caminho é o começo da descida; tem o nome de Cadeado, o declive aí é rapidíssimo; os ramos entram pelo caminho que é cortado abaixo do nível do solo, e o tornam muito sombrio, avança-se por cima de grandes pedras escorregadias, e as mulas são freqüentemente obrigadas a se jogarem com suas cargas. Eu não cansava de admirar a habilidade desses animais para se safar de situações difíceis. Eles são treinados inicialmente para fazerem a travessia da serra sem nenhuma carga no lombo, em seguida levando apenas a cangalha e, finalmente, transportando a carga. Muitos morrem nos primeiros treinos, mas depois que a travessia foi feita muitas vezes os animais não encontram nenhuma dificuldade em enfrentar os obstáculos que o caminho apresenta a todo momento. Eles sabem escolher, com sagacidade extraordinária, os lugares onde podem colocar os pés com segurança.

Tínhamos levado quase oito horas para percorrer 3 léguas. Meu guia afirmou que nos seria impossível alcançar as habitações mais próximas antes do fim do dia. Tomei a resolução de parar no meio da floresta, no lugar denominado Pinheirinho, onde parece que os viajantes passam a noite, geralmente. A direita se levantam picos inacessíveis cobertos de mato; a esquerda árvores gigantescas de um verde sombrio espalhavam sua vasta ramagem; mais abaixo despejava uma torrente, cujo ruído se faz ouvir ao longe.

Tão logo foi descarregada a minha bagagem, a chuva começou a cair. Afligi-me ao pensar nas minhas coleções, mas Manuel e o meu guia tomaram algumas medidas que logo dissiparam os meus receios. Colocaram minhas canastras sobre algumas varas estendidas no chão e fizeram por cima delas uma armação com paus e varas de bambu, estendendo finalmente por cima os couros que serviam para proteger a carga dos burros. Minha cama foi arrumada por cima das canastras e a bagagem miúda colocada ao meu lado, e ainda sobrou espaço no abrigo para Laruote e José.

Não choveu durante a noite, mas tão logo o sol apareceu o tempo se tornou nublado e choveu o dia todo. A descida continua até o lugar chamado Porto, e embora o declive já não seja tão acentuado o caminho se mantém tão ruim quanto antes.

É no Porto que se vêem as primeiras habitações; por ali passa também o Rio Cubatão, que eu já tinha visto ao descer a Serra, onde ele nasce. Para ir a Paranaguá, embarcava-se antigamente no Porto. Mas como existam corredeiras entre este lugarejo e o arraial de Morretes - hoje cidade - à época de minha viagem era neste arraial que se faziam os embarques. O Porto tinha perdido sua primitiva finalidade, mas conservava ainda o nome que lhe dera sua antiga função.

É encantadora a vista que podemos descortinar à saída do lugarejo, se olharmos para trás. Vemos as montanhas cobertas de mata que acabamos de atravessar, no sopé da serra fica o aglomerado de casinhas do lugarejo, rodeadas de árvores copadas, e diante delas o Rio Cubatão (Nhundiaquara), que é largo e corre rápido sobre leito de seixos".

segunda-feira, 12 de novembro de 2007



"Carrasco de si mesmo

Vou cortar-te sem me irritar
E sem ódio, como um açougueiro,
Como Moisés contra a rocha!
E te ferirei os olhos,


Para regar o meu Saara,
Jorrar águas do sofrimento.
Meu desejo esperançoso
Em suas lágrimas nadar


Como um navio ao alto mar
E em meu coração que soluça
Meu coração embriagado
Fará bater como um tambor!


Eu não sou um falso acorde
Na divina sinfonia
Graças à voraz ironia
Que me agita e que me morde?


Ela distorce a minha voz!
É meu sangue, negro veneno!
E eu sou o espelho obsceno
Onde ela se enxerga, atroz.


Sou a ferida e a punhal!
Sou o fole e bochecha,
Eu sou os membros e a roda,
A vítima eo carrasco!


Sou o vampiro de meu sangue
Um dos maiores abandonados
Condenado ao riso eterno
Cujo sorriso é impossível"


"Todas as belezas contêm... alguma coisa de eterno e alguma coisa de transitório - de absoluto e de eterno. A beleza absoluta e eterna não existe... O elemento particular de cada beleza vem das paixões e como temos as nossas paixões particulares também temos a nossa beleza"

domingo, 11 de novembro de 2007

Memórias prestes a serem póstumas... 01/03/2004

Passarei por vida e morte
Então insiro aqui um reaciocínio certeiro
baseado em coisas que nem entendi direito
como se tudo começasse bem e terminasse mal, sempre
como se sempre existisse a possibildiade
de salvar alguma coisa e continuar vivendo
mas não acreditasse nisso o suficiente pra tentar

"Os Benefícios da Lua

A lua, que é a própria imagem do capricho, olhou pela
Janela enquanto dormias em teu berço, e disse consigo,
Mesma: - "Esta criança me agrada".
E desceu maciamente a sua escada de nuvens, e
Deslizou sem ruído através das vidraças.
E pousou sôbre ti com
Um suave carinho de mãe, e depôs as suas côres em tuas
Faces. Então, tuas pupilas se tornaram verdes, e tuas faces
Extraordinàriamente pálidas. Foi contemplando essa visitante
Que os teus olhos se dilataram de modo tão estranho; e
Ela com tão viva ternura te apertou a garganta que ficaste,
Para sempre, com o desejo de chorar.
Entretanto, na expansão da sua alegria, a Lua invadia
Todo o quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe
Luminoso; e tôda esta luz viva pensava e dizia:
- Tu sofrerás eternamente a influência do meu beijo.
Serás bela à minha maneira. Amarás o que eu amo e o que
Me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar
Imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde
Não estiveres; o amante que não conheceres; as flôres
Monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que
Desmaiam sôbre os pianos e gemem que nem as mulheres,
Com uma doce voz enrouquecida!
"E tu serás amada pelos meus amantes, cortejada pelos
Meus cortejadores. Serás a rainha dos homens de olhos
Verdes a quem também estreitei a garganta em minhas
Carícias noturnas; daqueles que amam o mar, o mar imenso,
Tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar
onde não estão, a mulher que não conhecem, as flôres sinistras
Que sugerem incensórios de alguma religião ignota, os
Perfumes que turbam a vontade, e os animais selvagens e
Voluptuosos que são os emblemas da sua loucura."
E é por isso, maldita e querida criança mimada, que
Estou agora prosternado a teus pés, buscando em tôda a tua
Pessoa o reflexo da terrível Divindade, da fatídica madrinha,
Da ama-de-leite envenenadora de todos os lunáticos."
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Charles Baudelaire




"Embriague-se

É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: 'É hora de embriagar-se! Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser'."
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