segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Caminho do Itupava, por Auguste de Saint`Hilaire


Auguste de Saint`Hilaire - Viajante e cientista francês, viajou alguns anos pelo Brasil, tendo escrito importantes livros sobre os costumes e paisagens brasileiros do século XIX.





O Relato de Saint'Hilaire sobre o caminho do Itupava em "Viagem a Curitiba e Província de Santa Catarina", de 1820, é exato, perfeito, milimétrico.

Ler é reviver!

"Mais ao longe o terreno se torna menos desigual, e a campanha oferece uma agradável alternância de pastagens e bosques, estes na maioria, compostos quase unicamente de araucárias. Estas árvores (araucárias), quase sempre comprimidas umas às outras, apresentam-se como manchas de verde escuro, algumas vezes nascem no campo e, então, só se tocam na copa e suas tintas escuras contrastam com a verdura da grama que cresce por baixo. Diante de nós, no horizonte, avistamos a Serra de Paranaguá, cujos cumes, de variadas formas, são cobertos de mato. A paisagem apresenta aspecto austero e majestoso que a natureza sempre tem nas montanhas.

A fazenda onde parei, denominada Borda do Campo, tinha sido também uma propriedade dos antigos jesuítas. Depois de sua expulsão, a propriedade foi administrada inicialmente pela Fazenda Real, mas como não produzisse nada nas mãos dos funcionários do governo, ela foi levada a leilão. É essa praticamente, a história de todos os estabelecimentos que haviam pertencido aos jesuítas e dos quais eles sempre tinham sabido tirar grande proveito. As terras ao redor de Borda do Campo (Parque Castelo Branco) não são, na verdade muito boas, e seus pastos não possuem a qualidade que tem os dos Campos Gerais, mas o local pode ser considerado um ponto-chave para os distritos de Curitiba e Castro. Os padres da Companhia de Jesus podiam, ali, aumentar sua influência e o número de seus amigos. Não é de admirar que, em geral, as propriedades dos jesuítas fossem tão lucrativas para eles, quanto nas mãos do Rei elas se tornavam inúteis. São conhecidos o descaso e a má fé com que é administrado o Brasil e tudo o que se relaciona com o serviço público. Em oposição, os jesuítas punham em tudo uma ordem e uma atividade que ninguém conseguia sobrepujar e, além do amor ao dever que os animava, eles tinham um "sprit de corpis" e uma noção de honra elevados ao mais alto grau.

Depois de assistir à fabricação do mate, deixei a Fazenda de Borda do Campo. Logo penetramos em matas onde predomina a araucária e onde encontramos alguns profundos atoleiros aos quais o meu guia não deu grande atenção. Com efeito, isso nada era, comparado com o que iríamos enfrentar mais tarde.

O primeiro passo difícil que encontramos, tem o nome de Pão de Loth. Neste lugar o caminho é coberto (calçado) de grandes pedras arredondadas e o seu declive é muito acentuado. De vez em quando as bestas de carga são forçadas a dar saltos assustadores para o viajante que nunca passou por essa serra.

A estrada volta a ser passável até o lugar denominado Boa Vista, porque daí se vê grande parte da planície que se percorreu antes de chegar a serra.

Na Boa Vista o caminho é cortado na montanha, numa profundidade de perto de quatro metros e não oferece mais que uma passagem estreita onde as mulas não avançam sem raspar-se com sua carga à direita e à esquerda. Logo começa-se a ver adiante de si um dos mais altos picos da serra, o Marumbi, cujos flancos cortados verticalmente não mostram, em vários lugares, senão rocha viva. A estrada vai se tornando cada vez mais difícil; em certos lugares ela é cavada na montanha a uma profundidade considerável, tem pequena largura e é coberta pela folhagem das árvores, que se entrelaçam no alto e privam o viajante da luz do dia. Em outros trechos são os atoleiros que surgem, e é com grande dificuldade que os burros se livram deles; finalmente há bruscos desníveis no terreno, que obrigam os animais a dar grandes saltos. Em vários lugares foram colocadas algumas achas de madeira sobre os atoleiros, mas os animais escorregam ao pisar sobre suas superfícies arredondadas e molhadas, correndo o risco de cair a todo momento.

A pior parte de todo o caminho é o começo da descida; tem o nome de Cadeado, o declive aí é rapidíssimo; os ramos entram pelo caminho que é cortado abaixo do nível do solo, e o tornam muito sombrio, avança-se por cima de grandes pedras escorregadias, e as mulas são freqüentemente obrigadas a se jogarem com suas cargas. Eu não cansava de admirar a habilidade desses animais para se safar de situações difíceis. Eles são treinados inicialmente para fazerem a travessia da serra sem nenhuma carga no lombo, em seguida levando apenas a cangalha e, finalmente, transportando a carga. Muitos morrem nos primeiros treinos, mas depois que a travessia foi feita muitas vezes os animais não encontram nenhuma dificuldade em enfrentar os obstáculos que o caminho apresenta a todo momento. Eles sabem escolher, com sagacidade extraordinária, os lugares onde podem colocar os pés com segurança.

Tínhamos levado quase oito horas para percorrer 3 léguas. Meu guia afirmou que nos seria impossível alcançar as habitações mais próximas antes do fim do dia. Tomei a resolução de parar no meio da floresta, no lugar denominado Pinheirinho, onde parece que os viajantes passam a noite, geralmente. A direita se levantam picos inacessíveis cobertos de mato; a esquerda árvores gigantescas de um verde sombrio espalhavam sua vasta ramagem; mais abaixo despejava uma torrente, cujo ruído se faz ouvir ao longe.

Tão logo foi descarregada a minha bagagem, a chuva começou a cair. Afligi-me ao pensar nas minhas coleções, mas Manuel e o meu guia tomaram algumas medidas que logo dissiparam os meus receios. Colocaram minhas canastras sobre algumas varas estendidas no chão e fizeram por cima delas uma armação com paus e varas de bambu, estendendo finalmente por cima os couros que serviam para proteger a carga dos burros. Minha cama foi arrumada por cima das canastras e a bagagem miúda colocada ao meu lado, e ainda sobrou espaço no abrigo para Laruote e José.

Não choveu durante a noite, mas tão logo o sol apareceu o tempo se tornou nublado e choveu o dia todo. A descida continua até o lugar chamado Porto, e embora o declive já não seja tão acentuado o caminho se mantém tão ruim quanto antes.

É no Porto que se vêem as primeiras habitações; por ali passa também o Rio Cubatão, que eu já tinha visto ao descer a Serra, onde ele nasce. Para ir a Paranaguá, embarcava-se antigamente no Porto. Mas como existam corredeiras entre este lugarejo e o arraial de Morretes - hoje cidade - à época de minha viagem era neste arraial que se faziam os embarques. O Porto tinha perdido sua primitiva finalidade, mas conservava ainda o nome que lhe dera sua antiga função.

É encantadora a vista que podemos descortinar à saída do lugarejo, se olharmos para trás. Vemos as montanhas cobertas de mata que acabamos de atravessar, no sopé da serra fica o aglomerado de casinhas do lugarejo, rodeadas de árvores copadas, e diante delas o Rio Cubatão (Nhundiaquara), que é largo e corre rápido sobre leito de seixos".

segunda-feira, 12 de novembro de 2007



"Carrasco de si mesmo

Vou cortar-te sem me irritar
E sem ódio, como um açougueiro,
Como Moisés contra a rocha!
E te ferirei os olhos,


Para regar o meu Saara,
Jorrar águas do sofrimento.
Meu desejo esperançoso
Em suas lágrimas nadar


Como um navio ao alto mar
E em meu coração que soluça
Meu coração embriagado
Fará bater como um tambor!


Eu não sou um falso acorde
Na divina sinfonia
Graças à voraz ironia
Que me agita e que me morde?


Ela distorce a minha voz!
É meu sangue, negro veneno!
E eu sou o espelho obsceno
Onde ela se enxerga, atroz.


Sou a ferida e a punhal!
Sou o fole e bochecha,
Eu sou os membros e a roda,
A vítima eo carrasco!


Sou o vampiro de meu sangue
Um dos maiores abandonados
Condenado ao riso eterno
Cujo sorriso é impossível"


"Todas as belezas contêm... alguma coisa de eterno e alguma coisa de transitório - de absoluto e de eterno. A beleza absoluta e eterna não existe... O elemento particular de cada beleza vem das paixões e como temos as nossas paixões particulares também temos a nossa beleza"

domingo, 11 de novembro de 2007

Memórias prestes a serem póstumas... 01/03/2004

Passarei por vida e morte
Então insiro aqui um reaciocínio certeiro
baseado em coisas que nem entendi direito
como se tudo começasse bem e terminasse mal, sempre
como se sempre existisse a possibildiade
de salvar alguma coisa e continuar vivendo
mas não acreditasse nisso o suficiente pra tentar

"Os Benefícios da Lua

A lua, que é a própria imagem do capricho, olhou pela
Janela enquanto dormias em teu berço, e disse consigo,
Mesma: - "Esta criança me agrada".
E desceu maciamente a sua escada de nuvens, e
Deslizou sem ruído através das vidraças.
E pousou sôbre ti com
Um suave carinho de mãe, e depôs as suas côres em tuas
Faces. Então, tuas pupilas se tornaram verdes, e tuas faces
Extraordinàriamente pálidas. Foi contemplando essa visitante
Que os teus olhos se dilataram de modo tão estranho; e
Ela com tão viva ternura te apertou a garganta que ficaste,
Para sempre, com o desejo de chorar.
Entretanto, na expansão da sua alegria, a Lua invadia
Todo o quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe
Luminoso; e tôda esta luz viva pensava e dizia:
- Tu sofrerás eternamente a influência do meu beijo.
Serás bela à minha maneira. Amarás o que eu amo e o que
Me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar
Imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde
Não estiveres; o amante que não conheceres; as flôres
Monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que
Desmaiam sôbre os pianos e gemem que nem as mulheres,
Com uma doce voz enrouquecida!
"E tu serás amada pelos meus amantes, cortejada pelos
Meus cortejadores. Serás a rainha dos homens de olhos
Verdes a quem também estreitei a garganta em minhas
Carícias noturnas; daqueles que amam o mar, o mar imenso,
Tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar
onde não estão, a mulher que não conhecem, as flôres sinistras
Que sugerem incensórios de alguma religião ignota, os
Perfumes que turbam a vontade, e os animais selvagens e
Voluptuosos que são os emblemas da sua loucura."
E é por isso, maldita e querida criança mimada, que
Estou agora prosternado a teus pés, buscando em tôda a tua
Pessoa o reflexo da terrível Divindade, da fatídica madrinha,
Da ama-de-leite envenenadora de todos os lunáticos."
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Charles Baudelaire




"Embriague-se

É preciso estar sempre embriagado. Isso é tudo: é a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que lhe quebra os ombros e o curva para o chão, é preciso embriagar-se sem perdão.
Mas de que? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser. Mas embriague-se.
E se às vezes, nos degraus de um palácio, na grama verde de um fosso, na solidão triste do seu quarto, você acorda, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, pergunte ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunte que horas são e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio lhe responderão: 'É hora de embriagar-se! Para não ser o escravo mártir do Tempo, embriague-se; embriague-se sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude, como quiser'."
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