
Auguste de Saint`Hilaire - Viajante e cientista francês, viajou alguns anos pelo Brasil, tendo escrito importantes livros sobre os costumes e paisagens brasileiros do século XIX.

O Relato de Saint'Hilaire sobre o caminho do Itupava em "Viagem a Curitiba e Província de Santa Catarina", de 1820, é exato, perfeito, milimétrico.
Ler é reviver!
"Mais ao longe o terreno se torna menos desigual, e a campanha oferece uma agradável alternância de pastagens e bosques, estes na maioria, compostos quase unicamente de araucárias. Estas árvores (araucárias), quase sempre comprimidas umas às outras, apresentam-se como manchas de verde escuro, algumas vezes nascem no campo e, então, só se tocam na copa e suas tintas escuras contrastam com a verdura da grama que cresce por baixo. Diante de nós, no horizonte, avistamos a Serra de Paranaguá, cujos cumes, de variadas formas, são cobertos de mato. A paisagem apresenta aspecto austero e majestoso que a natureza sempre tem nas montanhas.
A fazenda onde parei, denominada Borda do Campo, tinha sido também uma propriedade dos antigos jesuítas. Depois de sua expulsão, a propriedade foi administrada inicialmente pela Fazenda Real, mas como não produzisse nada nas mãos dos funcionários do governo, ela foi levada a leilão. É essa praticamente, a história de todos os estabelecimentos que haviam pertencido aos jesuítas e dos quais eles sempre tinham sabido tirar grande proveito. As terras ao redor de Borda do Campo (Parque Castelo Branco) não são, na verdade muito boas, e seus pastos não possuem a qualidade que tem os dos Campos Gerais, mas o local pode ser considerado um ponto-chave para os distritos de Curitiba e Castro. Os padres da Companhia de Jesus podiam, ali, aumentar sua influência e o número de seus amigos. Não é de admirar que, em geral, as propriedades dos jesuítas fossem tão lucrativas para eles, quanto nas mãos do Rei elas se tornavam inúteis. São conhecidos o descaso e a má fé com que é administrado o Brasil e tudo o que se relaciona com o serviço público. Em oposição, os jesuítas punham em tudo uma ordem e uma atividade que ninguém conseguia sobrepujar e, além do amor ao dever que os animava, eles tinham um "sprit de corpis" e uma noção de honra elevados ao mais alto grau.
Depois de assistir à fabricação do mate, deixei a Fazenda de Borda do Campo. Logo penetramos em matas onde predomina a araucária e onde encontramos alguns profundos atoleiros aos quais o meu guia não deu grande atenção. Com efeito, isso nada era, comparado com o que iríamos enfrentar mais tarde.
O primeiro passo difícil que encontramos, tem o nome de Pão de Loth. Neste lugar o caminho é coberto (calçado) de grandes pedras arredondadas e o seu declive é muito acentuado. De vez em quando as bestas de carga são forçadas a dar saltos assustadores para o viajante que nunca passou por essa serra.
A estrada volta a ser passável até o lugar denominado Boa Vista, porque daí se vê grande parte da planície que se percorreu antes de chegar a serra.
Na Boa Vista o caminho é cortado na montanha, numa profundidade de perto de quatro metros e não oferece mais que uma passagem estreita onde as mulas não avançam sem raspar-se com sua carga à direita e à esquerda. Logo começa-se a ver adiante de si um dos mais altos picos da serra, o Marumbi, cujos flancos cortados verticalmente não mostram, em vários lugares, senão rocha viva. A estrada vai se tornando cada vez mais difícil; em certos lugares ela é cavada na montanha a uma profundidade considerável, tem pequena largura e é coberta pela folhagem das árvores, que se entrelaçam no alto e privam o viajante da luz do dia. Em outros trechos são os atoleiros que surgem, e é com grande dificuldade que os burros se livram deles; finalmente há bruscos desníveis no terreno, que obrigam os animais a dar grandes saltos. Em vários lugares foram colocadas algumas achas de madeira sobre os atoleiros, mas os animais escorregam ao pisar sobre suas superfícies arredondadas e molhadas, correndo o risco de cair a todo momento.
A pior parte de todo o caminho é o começo da descida; tem o nome de Cadeado, o declive aí é rapidíssimo; os ramos entram pelo caminho que é cortado abaixo do nível do solo, e o tornam muito sombrio, avança-se por cima de grandes pedras escorregadias, e as mulas são freqüentemente obrigadas a se jogarem com suas cargas. Eu não cansava de admirar a habilidade desses animais para se safar de situações difíceis. Eles são treinados inicialmente para fazerem a travessia da serra sem nenhuma carga no lombo, em seguida levando apenas a cangalha e, finalmente, transportando a carga. Muitos morrem nos primeiros treinos, mas depois que a travessia foi feita muitas vezes os animais não encontram nenhuma dificuldade em enfrentar os obstáculos que o caminho apresenta a todo momento. Eles sabem escolher, com sagacidade extraordinária, os lugares onde podem colocar os pés com segurança.
Tínhamos levado quase oito horas para percorrer 3 léguas. Meu guia afirmou que nos seria impossível alcançar as habitações mais próximas antes do fim do dia. Tomei a resolução de parar no meio da floresta, no lugar denominado Pinheirinho, onde parece que os viajantes passam a noite, geralmente. A direita se levantam picos inacessíveis cobertos de mato; a esquerda árvores gigantescas de um verde sombrio espalhavam sua vasta ramagem; mais abaixo despejava uma torrente, cujo ruído se faz ouvir ao longe.
Tão logo foi descarregada a minha bagagem, a chuva começou a cair. Afligi-me ao pensar nas minhas coleções, mas Manuel e o meu guia tomaram algumas medidas que logo dissiparam os meus receios. Colocaram minhas canastras sobre algumas varas estendidas no chão e fizeram por cima delas uma armação com paus e varas de bambu, estendendo finalmente por cima os couros que serviam para proteger a carga dos burros. Minha cama foi arrumada por cima das canastras e a bagagem miúda colocada ao meu lado, e ainda sobrou espaço no abrigo para Laruote e José.
Não choveu durante a noite, mas tão logo o sol apareceu o tempo se tornou nublado e choveu o dia todo. A descida continua até o lugar chamado Porto, e embora o declive já não seja tão acentuado o caminho se mantém tão ruim quanto antes.
É no Porto que se vêem as primeiras habitações; por ali passa também o Rio Cubatão, que eu já tinha visto ao descer a Serra, onde ele nasce. Para ir a Paranaguá, embarcava-se antigamente no Porto. Mas como existam corredeiras entre este lugarejo e o arraial de Morretes - hoje cidade - à época de minha viagem era neste arraial que se faziam os embarques. O Porto tinha perdido sua primitiva finalidade, mas conservava ainda o nome que lhe dera sua antiga função.
É encantadora a vista que podemos descortinar à saída do lugarejo, se olharmos para trás. Vemos as montanhas cobertas de mata que acabamos de atravessar, no sopé da serra fica o aglomerado de casinhas do lugarejo, rodeadas de árvores copadas, e diante delas o Rio Cubatão (Nhundiaquara), que é largo e corre rápido sobre leito de seixos".

O Relato de Saint'Hilaire sobre o caminho do Itupava em "Viagem a Curitiba e Província de Santa Catarina", de 1820, é exato, perfeito, milimétrico.
Ler é reviver!
"Mais ao longe o terreno se torna menos desigual, e a campanha oferece uma agradável alternância de pastagens e bosques, estes na maioria, compostos quase unicamente de araucárias. Estas árvores (araucárias), quase sempre comprimidas umas às outras, apresentam-se como manchas de verde escuro, algumas vezes nascem no campo e, então, só se tocam na copa e suas tintas escuras contrastam com a verdura da grama que cresce por baixo. Diante de nós, no horizonte, avistamos a Serra de Paranaguá, cujos cumes, de variadas formas, são cobertos de mato. A paisagem apresenta aspecto austero e majestoso que a natureza sempre tem nas montanhas.
A fazenda onde parei, denominada Borda do Campo, tinha sido também uma propriedade dos antigos jesuítas. Depois de sua expulsão, a propriedade foi administrada inicialmente pela Fazenda Real, mas como não produzisse nada nas mãos dos funcionários do governo, ela foi levada a leilão. É essa praticamente, a história de todos os estabelecimentos que haviam pertencido aos jesuítas e dos quais eles sempre tinham sabido tirar grande proveito. As terras ao redor de Borda do Campo (Parque Castelo Branco) não são, na verdade muito boas, e seus pastos não possuem a qualidade que tem os dos Campos Gerais, mas o local pode ser considerado um ponto-chave para os distritos de Curitiba e Castro. Os padres da Companhia de Jesus podiam, ali, aumentar sua influência e o número de seus amigos. Não é de admirar que, em geral, as propriedades dos jesuítas fossem tão lucrativas para eles, quanto nas mãos do Rei elas se tornavam inúteis. São conhecidos o descaso e a má fé com que é administrado o Brasil e tudo o que se relaciona com o serviço público. Em oposição, os jesuítas punham em tudo uma ordem e uma atividade que ninguém conseguia sobrepujar e, além do amor ao dever que os animava, eles tinham um "sprit de corpis" e uma noção de honra elevados ao mais alto grau.
Depois de assistir à fabricação do mate, deixei a Fazenda de Borda do Campo. Logo penetramos em matas onde predomina a araucária e onde encontramos alguns profundos atoleiros aos quais o meu guia não deu grande atenção. Com efeito, isso nada era, comparado com o que iríamos enfrentar mais tarde.
O primeiro passo difícil que encontramos, tem o nome de Pão de Loth. Neste lugar o caminho é coberto (calçado) de grandes pedras arredondadas e o seu declive é muito acentuado. De vez em quando as bestas de carga são forçadas a dar saltos assustadores para o viajante que nunca passou por essa serra.
A estrada volta a ser passável até o lugar denominado Boa Vista, porque daí se vê grande parte da planície que se percorreu antes de chegar a serra.
Na Boa Vista o caminho é cortado na montanha, numa profundidade de perto de quatro metros e não oferece mais que uma passagem estreita onde as mulas não avançam sem raspar-se com sua carga à direita e à esquerda. Logo começa-se a ver adiante de si um dos mais altos picos da serra, o Marumbi, cujos flancos cortados verticalmente não mostram, em vários lugares, senão rocha viva. A estrada vai se tornando cada vez mais difícil; em certos lugares ela é cavada na montanha a uma profundidade considerável, tem pequena largura e é coberta pela folhagem das árvores, que se entrelaçam no alto e privam o viajante da luz do dia. Em outros trechos são os atoleiros que surgem, e é com grande dificuldade que os burros se livram deles; finalmente há bruscos desníveis no terreno, que obrigam os animais a dar grandes saltos. Em vários lugares foram colocadas algumas achas de madeira sobre os atoleiros, mas os animais escorregam ao pisar sobre suas superfícies arredondadas e molhadas, correndo o risco de cair a todo momento.
A pior parte de todo o caminho é o começo da descida; tem o nome de Cadeado, o declive aí é rapidíssimo; os ramos entram pelo caminho que é cortado abaixo do nível do solo, e o tornam muito sombrio, avança-se por cima de grandes pedras escorregadias, e as mulas são freqüentemente obrigadas a se jogarem com suas cargas. Eu não cansava de admirar a habilidade desses animais para se safar de situações difíceis. Eles são treinados inicialmente para fazerem a travessia da serra sem nenhuma carga no lombo, em seguida levando apenas a cangalha e, finalmente, transportando a carga. Muitos morrem nos primeiros treinos, mas depois que a travessia foi feita muitas vezes os animais não encontram nenhuma dificuldade em enfrentar os obstáculos que o caminho apresenta a todo momento. Eles sabem escolher, com sagacidade extraordinária, os lugares onde podem colocar os pés com segurança.
Tínhamos levado quase oito horas para percorrer 3 léguas. Meu guia afirmou que nos seria impossível alcançar as habitações mais próximas antes do fim do dia. Tomei a resolução de parar no meio da floresta, no lugar denominado Pinheirinho, onde parece que os viajantes passam a noite, geralmente. A direita se levantam picos inacessíveis cobertos de mato; a esquerda árvores gigantescas de um verde sombrio espalhavam sua vasta ramagem; mais abaixo despejava uma torrente, cujo ruído se faz ouvir ao longe.
Tão logo foi descarregada a minha bagagem, a chuva começou a cair. Afligi-me ao pensar nas minhas coleções, mas Manuel e o meu guia tomaram algumas medidas que logo dissiparam os meus receios. Colocaram minhas canastras sobre algumas varas estendidas no chão e fizeram por cima delas uma armação com paus e varas de bambu, estendendo finalmente por cima os couros que serviam para proteger a carga dos burros. Minha cama foi arrumada por cima das canastras e a bagagem miúda colocada ao meu lado, e ainda sobrou espaço no abrigo para Laruote e José.
Não choveu durante a noite, mas tão logo o sol apareceu o tempo se tornou nublado e choveu o dia todo. A descida continua até o lugar chamado Porto, e embora o declive já não seja tão acentuado o caminho se mantém tão ruim quanto antes.
É no Porto que se vêem as primeiras habitações; por ali passa também o Rio Cubatão, que eu já tinha visto ao descer a Serra, onde ele nasce. Para ir a Paranaguá, embarcava-se antigamente no Porto. Mas como existam corredeiras entre este lugarejo e o arraial de Morretes - hoje cidade - à época de minha viagem era neste arraial que se faziam os embarques. O Porto tinha perdido sua primitiva finalidade, mas conservava ainda o nome que lhe dera sua antiga função.
É encantadora a vista que podemos descortinar à saída do lugarejo, se olharmos para trás. Vemos as montanhas cobertas de mata que acabamos de atravessar, no sopé da serra fica o aglomerado de casinhas do lugarejo, rodeadas de árvores copadas, e diante delas o Rio Cubatão (Nhundiaquara), que é largo e corre rápido sobre leito de seixos".


