sábado, 31 de julho de 2010

Música espectral?

Okanagon, composta pelo italiano Giacinto Scelsi em 1968, para arpa, contrabaixo e tam tam.

1968 é um reflexo da música eletrônica no espaço acústico. Com a idéia de criar o espaço dentro da música, de criar a perspectiva na música, Scelsi salienta o elemento percussivo da obra (algo a se observar atento),  fazendo com que a arpa, o contrabaixo e o tam-tam assumam o papel de percussão (sobretudo na parte central da peça)
Scelsi com três instrumentos tradicionais e aparentemente de sonoridades diversas, cria um timbre especial e unificador nesta peça, com o tam tam, o contrabaixo, cujas três notas mais graves são afinadas meio tom abaixo e a arpa, em que as três cordas mais graves são afinadas 1/4 de tom acima. É como se essa música fosse feita com um só instrumento inventado, quando na verdade, são três instrumentos que estão tocando. 


"Come il battito del cuore della terra"

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Cidade grande

Lugar estranho,
terra hostil que me faz feliz
Posso ser ninguém aqui
Tenho a liberdade de ser ninguém
Somos todos "qualquer um" aqui.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

É frio

Tantas linhas em branco
Sufoca sentir esse silêncio
Um silêncio real e profundo
Lugar comum, inventado

Preencho o vazio com a dúvida
Certezas ferem, confirmam
Não há recíproco
E o tempo parece se divertir friamente

Sem resposta, o vento sopra
Ecoa, sem princípio, meio ou fim
Há dias assim, silêncio e abismo
Em que a dinâmica flutua

O dia está tão cinza
Nada se manifesta
Sugere movimentos que desconheço
Meu lugar não é aqui

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Os benefícios da lua (Charles Baudelaire)

"A lua, que é a própria imagem do capricho, olhou pela
janela enquanto dormias em teu berço, e disse consigo
mesma: - "Esta criança me agrada".
E desceu maciamente a sua escada de nuvens, e
deslizou sem ruído através das vidraças.
E pousou sôbre ti com
um suave carinho de mãe, e depôs as suas côres em tuas
faces. Então, tuas pupilas se tornaram  verdes, e tuas faces
extraordinàriamente pálidas. Foi contemplando essa visitante
que os teus olhos se dilataram de modo tão estranho; e
ela com tão viva ternura te apertou a garganta que ficaste,
para sempre, com o desejo de chorar.
Entretanto, na expansão da sua alegria, a Lua invadia
todo o quarto, como uma atmosfera fosfórica, como um peixe
luminoso; e tôda esta luz viva pensava e dizia:
- Tu sofrerás eternamente a influência do meu beijo.
Serás bela à minha maneira. Amarás o que eu amo e o que
me ama: a água, as nuvens, o silêncio e a noite; o mar
imenso e verde; a água informe e multiforme; o lugar onde
não estiveres; o amante que não conheceres; as flôres
monstruosas; os perfumes que fazem delirar; os gatos que
desmaiam sôbre os pianos e gemem que nem as mulheres,
com uma doce voz enrouquecida!
"E tu serás amada pelos meus amantes, cortejada pelos
meus cortejadores. Serás a rainha dos homens de olhos
verdes a quem também estreitei a garganta em minhas
carícias noturnas; daqueles que amam o mar, o mar imenso,
tumultuoso e verde, a água informe e multiforme, o lugar
onde não estão, a mulher que não conhecem, as flôres sinistras
que sugerem incensórios de alguma religião ignota, os
perfumes que turbam a vontade, e os animais selvagens e
voluptuosos que são os emblemas da sua loucura."
E é por isso, maldita e querida criança mimada, que
estou agora prosternado a teus pés, buscando em tôda a tua
pessoa o reflexo da terrível Divindade, da fatídica madrinha,
da ama-de-leite envenenadora de todos os lunáticos."