Música para quê?
Diálogo final (e mais significativo) do filme "Todas as manhãs do mundo" com Jean-Pierre Marielle e Gérard Depardieu:
(...)
>Posso lhe pedir uma última lição?
>>Pode tentar uma primeira lição?
...
>>Quero falar. A música está para dizer aquilo que a palavra não pode. Por isso não é de tudo humana.
Já descobriu que não está feita para o rei.
>Descobri que estava feita para Deus.
>>Pois equivocou-se. Deus fala.
>Para o ouvido?
>>O que não se pode dizer, não é para os ouvido, sr.
>Por dinheiro?
A gloria?
O silêncio?
>>O silêncio é o oposto da linguagem.
>Os músicos rivais?
O amor?
>>Não.
>A perda do amor?
>>Não.
>O abandono.
>>Não e não.
>Por uma barquinha dado ao invisível?
>>Tampouco.
O que é uma barquinha?
Algo que se vê. Tem sabor. Consome-se. Não é nada.
>Não sei senhor.
... não sei mais.
Aos mortos lhes oferece um copo...
>>Também se consome.
...
>Um abrevadero para os que não tem linguagem.
*
Para o assombro dos meninos.
*
Para suavizar as marteladas dos sapateiros.
*
Para o estado que precede a infância, quando não tínhamos fôlego nem luz.
>>Faz um instante ouviu-se suspirar.
Logo vou morrer... E minha arte comigo.
Só meus ganços e minhas galinhas sentirão saudades.
Confiarei-lhe um par de melodias... capazes de despertar aos mortos.
Vamos! Faz-nos falta um gole.
Temos que procurar a viola de minha difunta filha.
(...)
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